terça-feira, 21 de abril de 2009

Os bobos de Xapuri


Duas notinhas:


A primeira.


Dias desses, eu e minha mulher Diana descíamos a Getúlio Vargas – era um final de semana, se não estou errado – e vimos um casal de turistas saltando de um carro bem em frente à Casa Natal.


Quando desceu do veículo o homem avistou a estátua do Chico Mendes e começou a pular de alegria, a esfregar as mãos. Parecia que nem acreditava que estava se aproximando do maior líder de seringueiros que o Acre, o Brasil, e o mundo já viram. Mal pode esperar a sua companheira atravessar a rua tal era sua ansiedade em ver de perto, mesmo que em bronze, o acreano que ajudou a mudar a agenda do mundo.


Eu e Diana seguimos felizes da vida de sermos do Acre. Ganhamos o dia.


A segunda nota, é chocante.


Meu filho João Lucas, um jovem de 18 anos - ia passando por um desses restaurantes de beira de esquina da capital, vestindo uma camiseta com a imagem de Chico Mendes, quando uns caras que almoçavam o chamaram e se apresentaram como ‘moradores de Xapuri’. Perguntaram a ele por que usava aquela blusa.


Antes de meu filho esboçar alguma reação e responder qualquer coisa os bobos de Xapuri começaram a enxovalhar Chico Mendes, o acusando de absurdos que nós todos já estamos acostumados a ouvir e a não dizer nada, na maioria das vezes. O nível dos argumentos usados para intimidar meu filho foi muito baixo. Resultado: isso confundiu ou pelo menos fez meu filho me questionar sobre quem tinha sido mesmo Chico Mendes.


Falei a ele que os ataques a Chico Mendes fazem parte de uma luta política que se trava no Acre e na Amazônia atualmente – hoje com mais intensidade. Uma luta ideológica. E que essas pessoas que o abordaram, esses bobos de Xapuri [não sei se são mesmo de lá] não sabem ou não querem reconhecer a importância de Chico para o Acre, o Brasil e o mundo. Independente dos seus problemas que teve como pessoa – bastante ressaltados pelos bobos de Xapuri – Chico Mendes ajudou o Acre a chamar à atenção para o problema do ambiente. E, que, mesmo assassinado pelos opositores da floresta ele continua ajudando o Acre a seguir em frente. O Acre mudou graças a Chico Mendes. Não é frase feita. É fato.


Constato ainda que esses adversários do ambiente, defensores do modelo rondoniense de ‘prosperidade’, estão se agigantando no Acre. Meu filho ficou em dúvida depois dessa conversa com esses reacionários – seriam trogloditas? - de Xapuri.


Por fim, disse a meu filho que ele precisava estudar mais esse assunto para entender melhor sobre as necessidades do planeta e dessa luta ideológica, política, que se trava no dia-a-dia aqui no Acre e na Amazônia.


Sinceramente: fiquei preocupado que pessoas que se dizem de Xapuri ainda não conseguiram compreender o significado de Chico Mendes para as suas vidas e a vida no Acre. Para esses o que valeu mais foi a vida pessoal, repleta de ‘defeitos’ que Chico Mendes possivelmente levou enquanto estava vivo. A causa e a bandeira que ele empunhou, essas, não valeram absolutamente nada para os bobos de Xapuri.


Decidi: vou comprar uma camiseta com a imagem de Chico Mendes.


Um comentário:

Projeto/blog disse...

Olá,

Encontrei o seu blog por acaso, pesquisando sobre minha querida terra Xapuri e sobre Chico Mendes, o guerreiro nem sempre reconhecido.
Li o seu texto "Os bobos de Xapuri" e me entristeço em perceber que, de fato, isso acontece com certa frequência pelas bandas da Princesinha do Acre.
Muitos são os que desmerecem o homem que Chico foi e sua representatividade como ícone do meio ambiente e defensor dos povos da floresta.
Eu sou um dos guerreiros que herdaram o legado de Chico: a certeza de que podemos conseguir mudar realidades, mas isso somente será possível se lutarmos e reconhecermos que a heróis vem do povo, da coragem, da necessidade de ir além - independente do que vão pensar de nós.

Eu sou o Clenes Guerreiro e escrevo para o blog História Multimídia de Xapuri.

Ah, tomei a liberdade de postar o seu texto no nosso blog. Creio que tem uns bobos que precisam ler isso!

Parabéns e um abraço.